Farinha pouca, meu pirão primeiro!

Apesar da crise que ainda afeta diversos setores da Nação e penaliza a classe mais sensível da população, notadamente dos trabalhadores, nossos dirigentes continuam vivendo no País das Maravilhas e promovendo medidas esbanjadoras que não condizem com a nossa realidade.

Pelo menos é o que se pode deduzir da iniciativa de grande parte do Poder Legislativo  que,  baseado em decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), anima-se  a fixar pagamento de 13º salário e terço de férias para agentes públicos em geral, pessoas que fazem parte de uma elite superiora e destacada, não só em termos de dinheiro como também em proteção e mordomia, muito deles munidos de foros privilegiados e prisões especiais que  lhes concedem o direito à deliquência oficializada, à corrupção e outras mazelas.

Como não poderia deixar de ser, a Câmara Municipal de Alagoinhas também adentra nesta balada inconsequente e irracional.

A propósito, não foi a primeira vez que vereadores locais tentaram inflar os seus subsídios básicos, penduricalhos à parte.

Em 2001 houve uma tentativa, rechaçada pela resistência popular e pela reação firme de setores da imprensa, mesmo ano em que o Poder Legislativo deu um exemplo dignificante e raro, devolvendo ao Poder Executivo 52 mil reais que sobraram no seu orçamento  durante a gestão do então vereador Elionaldo Teles.

Esta nova tentativa e/ou iniciativa vem em péssimo momento.

O país vive o resquício de uma crise econômica, situação que ensejou a  drástica decisão do presidente Michel Temer em congelar os gastos públicos por 20 anos,  afetando a educação, a saúde e a segurança pública, dentre outros setores.

Ao mesmo tempo, a Câmara está vivendo uma pendenga com seus servidores ao deixar de pagar a GAC (Gratificação de Avanço de Carreira) desde maio do ano passado, descumprindo a Lei Complementar 032/07, de 27 de dezembro de 2007, aprovada na gestão de João Rabelo, com os votos favoráveis de Roberto Torres, José Cleto, Raimunda Florêncio, Thor de Ninha e Jorge da Farinha, atuais vereadores, além de Edvando Pretinho, Radiovaldo Costa, Elionaldo Teles, Alfredinho Menezes e Jorge Mendes.

Considerando que  o presidente Roberto Torres declarou na imprensa que “a Câmara tem boa saúde financeira para pagar décimo terceiro e férias dos vereadores”, seria mais racional e prudente  que, antes de criar novas despesas,  honrasse o compromisso com os servidores que estão  sem receber o GAC desde junho de 2016.

Por outro lado, vereadores locais já dispõem de 81 dias de recesso, uma espécie de “férias esticadas”,  diferentemente do trabalhador que só tem direito a 30 dias de descanso após um ano de efetivo trabalho.

Observada a proporção, os vereadores deveriam diminuir seus subsídios, treze vezes maior do que o salário mínimo,   para manter isonomia com os trabalhadores, nunca aumentá-los.

Convém lembrar que até abril de 1974, nossos vereadores não eram remunerados e a Câmara contou com parlamentares do melhor naipe, a exemplo de Chico Reis, Marco Antunes, Jefferson Vila Nova, Dimas Campos, Carlos Navarro Filho e Beroaldo Soares, além dos falecidos José Francisco de Jesus, José Azi, Miguel Fontes, Judélio Carmo, Jairo Azi, Altino Rocha, Walter Campos, Hostílio Dias, Antonio Paolilo e Clóvis Teles, dentre muitos outros.

Na realidade, agentes públicos, principalmente eleitos pela população, não deveriam ser remunerados, a exemplo do que ocorre com os membros dos conselhos municipais, estaduais e federais, peças importantes na formulação de políticas públicas e no rumo dos governos.

É triste constatar que no passado, quando o exercício de um mandato eletivo era um serviço patriótico,   nossos políticos eram melhores e mais comprometidos com a população e seus problemas, cada vez maiores.

No passado não se dizia ao político: “você é pago para isso!”.

No passado o político ouvia orgulhoso: “você foi eleito para isso!”.

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