E quem ajuda Ivone de Jesus?

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Há dez anos ela dormiu nas calçadas e encara filas para agendar exames de outras pessoas pelo SUS. Agora, como paciente, não fazer uma ressonância magnética.

Neusa descobriu um câncer de mama e por pouco não precisou retirar um dos seios. Regina é hipertensa. Celina está cega, herança do diabetes. Auzira sofre com problemas de audição. Em comum, todas elas têm o infortúnio de depender do moroso Sistema Único de Saúde (SUS), mas também dividem a sorte de conhecer Ivone Pires de Jesus, 38 anos, os dez últimos dedicados a abrir portas de hospitais, maternidades e postos para os mais necessitados.

“Depois que eu passei três meses internada por causa de uma dengue hemorrágica, descobri como era difícil conseguir espaço nas unidades públicas de saúde. E por isso decidi me dedicar a agendar atendimentos para os outros”, diz Ivone. O trabalho voluntário começou onde mora, na Comunidade Jorge Amado, às margens da BR-101, em Alagoinhas, e se estendeu. “Também já acompanhei gente de Olindina, Inhambupe, Riacho da Guia, Pojuca, Catu”, exemplifica.

Para Ivone, ajudar o próximo tornou-se uma obsessão. Ela faz questão de acompanhar todo o tratamento dos pacientes, por isso, guarda cópia de documentos pessoais de todos, estejam vivos ou não. Alguns casos a emocionam, como o de Manoel Benício.

“Encontrei ele voltando do hospital sem atendimento. Não conseguia nem andar. Sofria de um problema sério de pulmão, por causa do veneno na lavoura. A família abandonou, ninguém queria contato e os médicos diziam para eu só chegar perto dele com máscara. Mas nunca tive medo. Quem guarda a gente é Deus”, sentencia Ivone.

Ela passou a pedir medicamentos para Manoel e deu entrada na aposentadoria dele pelo INSS em Alagoinhas. Mesmo com o laudo médico, o pedido foi negado. Incansável, Ivone conseguiu outro laudo e deu nova entrada, desta vez no município de Pojuca. Desta vez, o pedido foi acatado. “Manoel sempre dizia que ia me dar uma ajuda todo mês, mas eu nunca aceitei. O que eu queria era só a cópia dos documentos dele pra continuar acompanhando”.

O trabalho voluntário ganhou repercussão. Ivone passou a ser procurada por muita gente. Para garantir os atendimentos, dormiu diversas vezes nas calçadas das unidades de saúde. “Eu levava uma garrafa de café, uma de água e um lençol. Pedia papelão no supermercado para dormir. Tudo para conseguir uma ficha de atendimento logo cedo”, relata. Hoje, que ironia, é Ivone que precisa fazer exames, sendo que um deles, está sendo oferecido apenas na rede particular de saúde.

Saúde debilitada

O diagnóstico é de cefaleia com passado de epilepsia. “Já fui encontrada de até de camisola, na rua. Passei a ser acompanhada por um psiquiatra e melhorei bastante, mas ainda tenho desmaios”, garante Ivone. Associado a este problema de saúde, ela se vê às voltas com uma dor insuportável de coluna. “Segundo o médico, tem um cisto e preciso operar em Salvador”, conta.

Desde o início de agosto ela peregrina em busca de realização de uma ressonância magnética do crânio e de uma tomografia computadorizada da coluna. O primeiro exame custa R$850 na rede particular. O valor é 7,5 vezes mais do que os R$112 que Ivone recebe do Bolsa Família e reparte com a filha e quatro netos, com quem divide um cubículo de um cômodo.

Enquanto não consegue fazer os exames, Ivone convive com muitas dores. “Eu estou com dificuldade para caminhar e até deixei de trabalhar como diarista, porque tinha que arrastar um sofá, uma cama, fazia o esforço porque gosto de minhas coisas certas, mas no outro dia não aguentava ir de novo. Mesmo assim, eu ainda ajudo os outros. Nem que eu saia me arrastando”, reluta.

Primeira ajuda

Sensibilizado com a situação de Ivone de Jesus, o cantor Anderson Xará resolveu fazer um show beneficente. A intenção é destinar todo o dinheiro arrecadado com couvert artístico para que ela faça pelo menos a ressonância magnética do crânio na rede particular.

“Ivone já ajudou muita gente, tem uma linda história de dedicação e cuidado com o próximo. Estou tentando apenas retribuir um pouco do bem que ela faz”, comenta Xará.

O show acontece no próximo dia 29, no Restaurante Macaxeritas da Rua Marechal Floriano, Centro de Alagoinhas, a partir das 20 horas. O couvert custa R$ 5,00.

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